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Daniel Salomão.

Aprenda mais

Antes de escolher um investimento, entenda o que ele é.

Aqui simplifico tópicos importantes para uma fácil compreensão. Um assunto por vez, escrito para ser suficiente sozinho.

Renda fixa

Chamamos de renda fixa os investimentos em que a regra de remuneração é conhecida desde o início. Isso não quer dizer isento de risco, nem que todo papel se comporta do mesmo jeito — é só o ponto de partida mais simples para quem está começando.

Na prática, a renda fixa aparece sob três formas de remuneração. Prefixada, quando a taxa é combinada no momento da aplicação e não muda depois — 10% ao ano é 10% ao ano, sem sofrer influência de inflação ou taxa de juros. Pós-fixada, quando o retorno acompanha um indicador, geralmente o CDI ou a Selic — se subirem, você ganha mais, se caírem, menos. E atrelada à inflação, que garante um ganho fixo, geralmente acima do IPCA, para quem quer proteger o poder de compra do dinheiro no longo prazo, e o que rende acima disso chamamos retorno real.

As categorias mais comuns que um investidor encontra são o Tesouro Direto (títulos públicos, emitidos pelo governo federal), o CDB (emitido por bancos), as LCI e LCA (também bancárias, com isenção de Imposto de Renda para pessoa física) e as debêntures (emitidas por empresas). A diferença entre elas não é só de nome: é de quem deve o dinheiro a você, e isso muda o risco.

Isso me leva ao ponto que mais gente ignora: renda fixa não é sinônimo de risco zero. Existe risco de crédito — a possibilidade de quem emitiu o título não conseguir pagar. Para CDB, LCI e LCA, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) cobre até R$ 250 mil por CPF e por instituição, o que protege o pequeno investidor mas não cobre valores maiores concentrados num único banco. O Tesouro Direto tem o governo federal como devedor, considerado o risco de crédito mais baixo do mercado interno — mas não deixa de ser risco.

Existe também o risco de precisar do dinheiro antes da hora. Apesar de ser renda fixa, os títulos prefixados e atrelados à inflação sofrem o que chamamos marcação a mercado e com isso podem ter seu valor de face depreciado para ajustar a rentabilidade real do título, ou seja, o saldo investido pode diminuir por um período. Nesse caso, se você for obrigado a vender o título por necessidade, pode amargar perdas, mesmo em renda fixa. E há o Imposto de Renda, que segue uma tabela regressiva — quanto mais tempo o dinheiro fica aplicado, menor a alíquota, o que faz da renda fixa um investimento mais eficiente para quem já sabe o prazo que pode esperar.

Na carteira, a renda fixa, especialmente pós-fixada (que não oscila pra baixo), é onde normalmente entra o dinheiro que precisa estar disponível e sem sobressaltos — a reserva de emergência, o valor de um objetivo de curto prazo, a parte que serve de estabilidade para o resto poder assumir mais risco.

A importância da renda variável numa carteira

Os principais ativos de renda variável são as ações. Comprar uma ação significa se tornar sócio de uma empresa. O valor gerado pelos negócios deve ser superior ao de quem financia esses negócios, ou seja, quem empreende deve gerar mais retorno do que quem empresta. Quando olhamos para todo o mercado é isso o que aconteceu historicamente nas maiores economias do planeta em janelas de tempo longas.

A diferença essencial em relação à renda fixa é que aqui não existe regra de remuneração combinada ou conhecida previamente. Como você se torna sócio de uma empresa, seu retorno vem do lucro que ela gera ao longo dos anos e do preço que outro investidor estará disposto a pagar pela sua parte no futuro. Mas nenhuma das duas coisas é conhecida de antemão.

É justamente por não haver garantia de retorno que o mercado, ao precificar as ações, exige um “prêmio de risco”, com uma rentabilidade esperada superior à da “taxa livre de risco”, que apesar de não ser totalmente livre de risco, se refere à taxa de juros de referência do mercado. Assim, ao longo de períodos longos, a média do retorno de um mercado de renda variável tende a ser superior ao da renda fixa.

Um problema da renda variável chama-se volatilidade, que é a variação dos preços dos ativos ao longo do tempo. Isso gera uma sensação de insegurança em muitos investidores e pode levar a erros de comportamento clássicos como vender na baixa um ativo de alta qualidade e com boa expectativa de valorização futura.

Entender esses conceitos permite a um investidor seguir estratégias de alocação em renda variável e mantê-las por períodos de tempo suficientemente longos para colher seus retornos.

O que considero mais complicado em renda variável é que existem diversas estratégias de investimento. A questão principal é que o investidor precisa entender bem o que está fazendo. Assim poderá escolher a que serve melhor para o seu perfil, ter expectativas de retorno adequadas e ainda avaliar se está obtendo os retornos esperados ao longo do tempo.

Juros compostos

Os juros compostos estão entre as maiores demonstrações de beleza na matemática.

Eu conheci essa ideia antes de investir. Como gostava de matemática, fiquei impressionado com a chamada progressão geométrica — os juros compostos são uma aplicação dela. Quando comecei, em 1998, com os R$ 200 que sobraram depois de comprar os livros e materiais para a faculdade, era exatamente disso que eu estava me aproveitando — não do valor, que era irrelevante, mas do prazo; afinal, o que eu mais teria pela frente seria tempo.

A nossa cabeça consegue conceber facilmente os juros simples, mas não é natural compreendermos e calcularmos de cabeça os juros compostos. No simples, o rendimento incide sempre sobre o valor original. No composto, incide sobre o valor original mais tudo o que já rendeu antes. Nos primeiros anos as duas curvas quase se confundem. Depois elas se separam de um jeito que a intuição não acompanha — e é por isso que a maioria das pessoas subestima o efeito, mesmo entendendo a fórmula.

O que quase ninguém percebe é que o tempo pesa mais do que a taxa. Uma taxa alta por poucos anos costuma perder para uma taxa modesta por muitos anos. Não quer dizer que a taxa de retorno não seja importante, mas certamente o tempo seguindo o investimento é muito importante e pouco valorizado. E o tempo é a única variável que ninguém consegue recuperar depois — dá para melhorar a taxa, dá para aumentar o aporte, não dá para comprar tempo perdido.

Vale dizer que os juros compostos não têm lado. Eles funcionam com a mesma eficiência contra você, no cartão de crédito, no cheque especial, em qualquer dívida cara — só que ali o prazo trabalha para o outro lado. Antes de investir, é necessário eliminar as dívidas de juro alto, porque é matematicamente o mesmo problema com o sinal invertido. E o Brasil é um dos países campeões em valor de taxa de juros.

E há o custo que quase nunca aparece na conta de quem está começando: taxa de administração, corretagem e imposto também são compostos. Um percentual pequeno cobrado todo ano, ao longo de vinte anos, come uma fatia do patrimônio final muito maior do que o número anual sugere.

Métodos de investimento

Para um investidor que deseja montar uma carteira completa e focada em longo prazo, existem diversos métodos de investimento. Especialmente para a parte de renda variável, vou enumerar quatro deles: seguir relatórios de indicação de carteiras, escolher ações e outros ativos por conta própria, montar uma carteira de fundos de índice de baixo custo, ou terceirizar tudo para outra pessoa. Nenhum é errado — cada um cobra um tipo diferente de estudo, tempo e manutenção, e o que funciona é o método que você consegue sustentar por décadas.

Seguir relatórios de indicação de carteira significa assinar um serviço que diz o que comprar e o que vender. Exige pouco estudo inicial e entrega decisão pronta. Em troca, exige acompanhar as publicações com regularidade e executar as mudanças no prazo.

Escolher ações por conta própria — stock-picking — é o método que mais atrai, mas também o que cobra mais do investidor. Exige aprender a analisar empresas, acompanhar resultados trimestrais, e ter estômago para errar e seguir aprendendo. É um método que pode gerar tanto um desempenho muito acima da média quanto muito abaixo dela. Demanda de estudo alta, demanda de manutenção alta, e uma dedicação de horas que costuma surpreender quem entra achando que é hobby.

Caixas com fundos de índice de baixo custo é montar poucas posições amplas, cada uma com um propósito claro, e mantê-las. Exige entender o desenho da carteira uma vez e depois quase nada — o trabalho anual se resume a aportar e reequilibrar. Cobra, em compensação, aceitar o retorno do mercado sem tentar superá-lo. O segredo é saber desenhar a carteira para o seu perfil e conseguir instrumentalizar a estratégia de forma prática. Apesar do retorno de cada classe de ativos seguir a média do mercado, a sua composição faz toda a diferença, diminuindo o risco total da carteira, especialmente a sua volatilidade em relação às classes separadamente.

Terceirizar completamente é entregar a gestão a um profissional. Exige o menor tempo de todos e a maior capacidade de avaliar quem você contratou — que é uma habilidade diferente, e não necessariamente mais fácil.

Quando avalio a adequação de um método a uma pessoa, olho seis coisas, e volatilidade e retorno esperado são só as mais óbvias. As outras: se ela domina o método; se compreende as vantagens e desvantagens dele; se conhece as aplicações em que ele funciona melhor; se sabe medir o próprio resultado; qual a demanda de estudo e tempo; e qual a demanda de manutenção, ou seja, quantas atividades por mês e ano aquilo vai exigir dela.

Os dois últimos quase nunca aparecem nas conversas sobre investimento, e para quem tem pouco tempo livre no dia a dia costumam pesar mais que retorno esperado. Um método excelente que exige quatro horas por semana é pior, na prática, que um método mediano que exige quatro horas por ano — se você não quiser ou puder entregar essas quatro horas semanais.

E é esse o problema que me fez montar este material: muita gente escolhe um método por apelo de propaganda, sem nunca ter visto as alternativas lado a lado, e descobre a incompatibilidade anos depois — quando a troca já custou caro.

Para o investidor médio, considero que o piso razoável é o terceiro método: caixas com fundos de índice de baixo custo, bem diversificado entre classes de ativos e exposição a diferentes mercados. Com poucos ativos em carteira é possível se aproveitar do retorno esperado desses ativos associado a uma diminuição do risco e se manter muito bem diversificado. E quanto aos retornos, serão possivelmente acima da média, uma vez que miramos na média em retorno, mas com custos menores do que a média também.